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Opinião

“Quem teima em investir no interior tem de assumir a dose de loucura”

Paulo Romão

João Girão

Paulo Romão

Paulo Romão

Fundador das Casas do Côro

Fundador do projeto Casas do Côro, que colocou Marialva no mapa, secretário da assembleia-geral da Agência Regional de Promoção Turística Centro de Portugal, depois de vários anos na direção, membro da direção da Associação das Aldeias Históricas de Portugal e vice-presidente do NERGA — Núcleo Empresarial da Região da Guarda, Paulo Romão olha para o crescimento turístico em Portugal sem deslumbres e com a certeza de que “é tempo de passar da estratégia à conversão”. Nesta que é a segunda entrevista do Prémio Nacional Turismo, uma parceria Expresso/BPI, o empresário, que continua ligado ao sector têxtil, acredita que, apesar ser “um destino de futuro”, o interior do país continua a ser um território de “esforço”, onde se aprende a “acrescentar valor ao nada”.

As Casas do Côro (chave de Platina no “Guia Boa Cama Boa Mesa”) celebram, em breve, 20 anos de existência. Existe reconhecimento nacional e internacional num projeto que, além de colocar Marialva no mapa turístico, ajudou a fazer renascer uma aldeia do interior. Enquanto fundador, que balanço faz desta aventura?

Começámos do zero. Portugal estava muito longe de estar na moda enquanto destino turístico. As pessoas chamavam-nos doidos, mas para nós foi como lançar uma semente de futuro e acreditar. Hoje, o projeto está com uma energia redobrada porque já são os meus filhos que lideram e fazem avançar tudo. Não foi feito para ser herdado, mas sim para eles, com alma, o fazerem crescer.

Da mesma forma que foi pioneiro, há duas décadas, a passagem do testemunho para os cinco filhos também simboliza que existe uma nova geração e uma nova abordagem do turismo nos territórios do interior?

Essa é, provavelmente, a maior e a melhor nova realidade do território. Até há cerca de cinco anos, esse era o grande problema para quem investia a médio ou longo prazo no interior: os recursos humanos. Hoje, com a consolidação dos projetos, sejam de alojamento, de visitação ou de animação turística, existe uma oferta digna de trabalho, que não se esgota, como esgotava, na agricultura, na vinha ou na pastorícia. Hoje, quem termina os seus estudos já não precisa de ir embora. A juventude já tem futuro e essa é a grande transformação a que assistimos nos últimos anos. O interior é, inequivocamente, um destino de futuro. Mas é também um território de esforço, onde se aprende a acrescentar valor ao nada. Quem teima em investir no interior tem de assumir uma boa dose de loucura porque continua a existir um desequilíbrio muito grande entre o litoral e o interior

As assimetrias do território são um tema recorrente, mas também há quem acredite que o turismo pode ser a salvação do interior…

O turismo não vai ser a salvação do interior, nem das zonas massificadas, nem, claro, do próprio país. Há sinais evidentes de deslumbramento em relação à atividade turística e isso é perigoso. Ninguém deveria tirar partido do que de bom está acontecer no curto prazo, aumentando preços ou descaracterizando os locais e as operações e, pior, esquecendo aquilo que é mais importante em qualquer negócio. Se isto não é bom para o litoral, seguramente não será bom para o interior. O novo luxo não são as estrelas, o ouro, a subserviência ou o convencional, mas sim a autenticidade, os valores, a ética.

Então, afinal, qual é o grande constrangimento para o desenvolvimento do turismo nas regiões interiores?

Ao contrário do que acontece nas zonas como maior pressão turística, a mão de obra não é o nosso maior problema, mas sim os desequilíbrios existentes no país e que se refletem aqui. Estamos longe do ideal no que ao afluxo de turistas diz respeito, logo o potencial de crescimento é muito grande e o caminho é simples: reduzir o esforço de promoção dos destinos que já mostram maturidade e se vendem sozinhos, para se poder apoiar as regiões que ainda precisam de uma muleta. Esses sinais de pressão em algumas zonas deve também ser visto como uma oportunidade para destinos menos conhecidos. O grande problema dos destinos do interior é a sua emancipação. Podem existir os melhores projetos no interior de Portugal, mas se eles não forem devidamente comunicados, acaba por se perder um capital incrível. No interior, acima de tudo, devem afirmar-se projetos para o segmento alto e médio-alto. Não estamos vocacionados para turismo massificado.

Turismo de Portugal, regiões de turismo, comunidades intermunicipais, câmaras municipais e os próprios operadores fazem comunicação e divulgação dos seus territórios. O turismo português não deveria falar apenas com uma voz?

Quando, num país tão pequeno, o dinheiro e os financiamentos para o mesmo fim tem várias origens, então está tudo errado. O único caminho que nos pode proteger de ter vozes divergentes — e só tem voz, quem tem dinheiro — é canalizar as verbas de promoção através de uma única entidade que tenha um plano estratégico. Podem, por exemplo, ser as Entidades Regionais de Turismo, desde que sigam uma estratégia única definida superiormente. O meu reparo prende- -se com candidaturas efetuadas por todo o tipo de associações de outras áreas ou generalistas que nada sabem de turismo ou de promoção, mas que acabam por executar esses projetos sem qualquer estratégia de conversão, em nome do necessário retorno que daí deveria advir, delapidando dinheiro que é escasso e retirando o valor a quem o poderia gastar melhor.

Falta em Portugal, a exemplo de outros sectores da sociedade, um pacto estratégico ou de regime para o turismo?

Esse pacto existe num circuito de pessoas que funcionam à margem das pressões eleitorais. Estamos cansados de ver planos estratégicos realizados por consultoras de renome que apenas pisam e repisam o que já está identificado e definido há 20 anos. Está na hora de passar da estratégia à conversão. Chegou a altura de capitalizar tudo o que se estudou e investiu, quer do ponto de vista privado como público, e converter em faturação. É preciso faturar, faturar, faturar, e acrescentar valor todos os dias. Só assim transformamos o país e não precisamos de estar dependentes de pactos ou do Estado para o fazer.

Textos originalmente publicados no Expresso de 13 de julho de 2019