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Restaurante Páteo Velho: alma renovada, com vinhos de Alenquer

O sabor caseiro ditado pelo novo chefe regressado às origens reaviva as boas memórias deste restaurante que aposta nos produtores locais

A estrada sinuosa para lá da vila de Alenquer faz crer, à noite, que o perto longe se torna. A viagem do centro de Lisboa com destino ao restaurante Páteo Velho, na Atalaia, na pitoresca freguesia da Ventosa, dura cerca de 45 minutos. À chegada, Amália Veloso – mais conhecida por Milá –, co-proprietária do restaurante, declina qualquer tipo de cerimónia. O ambiente deste espaço, reaberto em novembro de 2017 após três meses de interregno, é descontraído e, ao mesmo tempo, intimista.

Onde antes as paredes eram revestidas por tons menos sóbrios, agora domina o branco a contrastar com as três telas de cores vivas – das quais duas foram feitas à medida das mesas dispostas junto das mesmas – da autoria do artista lisboeta João Paramés, além dos painéis de madeira ripada em paredes opostas. No teto deste restaurante com quase 25 anos, as vigas de madeira recuperadas dão o ar da sua graça.

Na parede do fundo do restaurante Páteo Velho (Rua 25 de Abril, 25, Ventosa, Alenquer. Tel. 263 760 466), a garrafeira farta em vinhos de Alenquer denuncia, pela positiva, a cumplicidade com os produtores do concelho. Estão ali "representados” 22 produtores e mais de 70 referências vínicas, que resultam de um trabalho conjunto entre Milá Veloso e um velho amigo e cliente da casa, João Carvalho, pequeno produtor da terra e mentor da Vitis Route, projeto nascido com base no melhor de dois mundos do concelho: o vinho e a comida. “A ideia é que o vinho não fosse um problema”, assume a coproprietária do restaurante, daí que tenha “muito bom preço” e 80 por cento das referências sejam vendidas a copo. Para além disso, as garrafas podem ser adquiridas a um preço acessível por quem escolhe o Páteo Velho para uma refeição. A razão para esta aposta centra-se não apenas no reforço das parcerias com os produtores de vitivinícola locais, como também no facto de Alenquer ter sido um dos municípios a vencer a candidatura a Cidade Europeia do Vinho em 2018, ao lado de Torres Vedras.

De alma zelada pelo eclético legado do deus Baco, que acompanhou a refeição, cada um com uma breve apresentação feita por João Carvalho, passemos para o estômago e fiquemos nas mãos de José Mártires (passou pelo 100 Maneiras e pela Bica do Sapato, em Lisboa, pelo Casta 85, em Alenquer, regressou a Lisboa para trabalhar ao lado do chefe Alexandre Silva, no Mercado da Ribeira, e esteve no Praia D’El Rey Marriot Golf & Beach Resort, em Óbidos). O novo e jovem chefe de 33 anos, natural do concelho de Alenquer, veio dar um novo fôlego à cozinha do Páteo Velho, cuja equipa é totalmente nova – à exceção da equipa de sala.

Recheada de petiscos e de pratos partilhados pelas memórias dos mais antigos, a ementa desdobra-se numa parafernália de sugestões digna de um bom garfo confecionadas, sobretudo, com produtos locais, no alinhamento da aposta feita em relação ao vinho. Para começar há duas manteigas – uma com chourição, a outra com ervas aromáticas – e o azeite aromatizado (€1,50), azeitonas marinadas em ervas do campo (€0,70) e o cesto de pão de sementes e pão de trigo, ambos feitos na aldeia e broa de milho em finas fatias (€2).

Na partilha registam-se 11 petiscos, desde os “Ovos rotos com camarão salteado” (€8), que “têm sido um sucesso”, ao “Polvo frito em farinha de milho com maionese de ervas e alho” (€5,50), passando pelas “Línguas de bacalhau fritas com a sua maionese” (€4,50).

Quem assim o entender, pode passar pelos “caldinhos” (cremes e sopa) ou saltar para os sabores marinhos. O “Bacalhau à Páteo Velho” (€9) ou as “Lascas de bacalhau da Islândia com broa crocante de presunto em cama de esmagada” (€14) são clássicos do restaurante com 20 anos, nos quais o chefe José Mártires não meteu a colher, e apenas dois dos seis pratos de peixe. Já à mesa, foi a “Cataplana de peixe e marisco” (€23 para duas pessoas) que despertou os sentidos dos presentes conquistados pelos aromas e pela cozedura no ponto.

Do prado perdura o “Arroz de pato à Páteo Velho” (€10,50), outra das receitas mais antigas da casa. Os restantes seis pratos de carne valem pela variedade e o conforto da chamada “comida de tacho” tão apetecível nos dias de inverno, como o bife do lombo, o duo de leitão, o cabrito assado, as bochechas de porco ou o “Wellington de perdiz com puré de castanhas e cogumelos salteados” (€14,50).

Em resposta às mais recentes tendências à mesa, há boas novas do campo, entre o “Risotto de cogumelos Portobello grelhados” (€11), a “Tagliatelle napolitana com legumes salteados” (€9,50) e os “Gnochi com queijo de cabra da Maçussa e cogumelos salteados” (€12), o famoso queijo produzido na aldeia homónima, no concelho vizinho da Azambuja.

Para acompanhar, a cozinha do Páteo Velho apresenta oito sugestões, entre as quais estão as estaladiças e viciantes “Cascas de batatas fritas com molho de trufa” (€1,80), indicadas também para entreter o palato enquanto aguarda pelo prato seguinte, como o Lagarto de porco preto (€9) ou os Secretos de porco preto (€11) de Estremoz, dois dos únicos produtos provenientes de fora da região, mais concretamente daquela cidade alentejana que, desde o início, se mantém na carta deste restaurante da Atalaia, segundo Paulo Caiano Santos, marido de Milá Veloso e coproprietário do restaurante Páteo Velho.

Do céu há, por sua vez, seis sobremesas, a secção da carta cuja autoria de outrora se deve a Maria Albertina, mãe de Milá Veloso, com mãos de fada no que à pastelaria diz respeito, área cuja dedicação não abdica, e cujo tempo destinou enquanto permaneceu nos bastidores deste restaurante. Sem mais delongas, mantém-se a tradição do “Toucinho-do- Céu” (€3,50), do delicioso “Páteo Velho” (€3,50) – inspirado no anterior, com a diferença de que as amêndoas são confecionadas com a casca – e do “Pudim de nozes” (€3,50), os quais continuam a encher as medidas dos vetustos clientes do Páteo Velho, mas também de Milá Veloso, que os considera “doces a sério!” A “Delícia de chocolate” (€4), o “Petit gateau com frutos silvestres e gelado de nata" (€4), bem como o “Cheesecacke de frutos silvestres” são, por sua vez, as novidades trazidas pelo chefe da terra para a cozinha deste edifício, em tempos idos, ligado à labora, fora herdado por António Veloso, pai de Milá Veloso que, com pouco depois de passar a barreira dos 20 anos se iniciou na restauração com este Páteo Velho.

Hoje, o Páteo Velho é, de certo, reconhecido por lisboetas e forasteiros que já tenham ouvido falar e/ou se tenham sentado à mesa do Restaurante Ordem dos Médicos, na capital portuguesa, cuja cozinha está nas suas mãos desde finais de 2013.

De volta à casa partida, na Atalaia, o restaurante de 58 lugares está aberto de terça-feira a sábado, das 12h00 às 16h00 e das 19h00 às 23h00, e ao domingo, das 12h00 às 16h00, horário durante o qual vale muito a pena almoçar ou jantar sem ligar aos ponteiros do relógio bem longe da azáfama da cidade, apesar de se recomendar a reserva.

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